Criatura · Regional

Pé de Garrafa

Também conhecido(a) como Pé-de-Garrafa

No interior do Centro-Oeste, sertanejos contam que basta ouvir um grito parecido com chamado humano, em meio à mata fechada, para que um caçador perca o rumo — e as pegadas redondas deixadas no barro, idênticas ao fundo de uma garrafa, confirmam que o Pé de Garrafa esteve por ali.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.

Origem

Viajar pelo interior do Centro-Oeste, em especial pelas matas de Mato Grosso e Goiás, é quase certo encontrar quem fale do Pé de Garrafa, criatura também lembrada em outras regiões do país, a exemplo do Piauí. Luís da Câmara Cascudo a incluiu entre seus estudos sobre os mitos brasileiros, descrevendo-a a partir do que recolheu junto a caçadores e moradores do sertão.

Não há como apontar uma data precisa para o surgimento dessa figura. Ela faz parte do mesmo grupo de guardiões da mata que reúne o Curupira e a Caipora, seres que protegem — ou assombram — a floresta e quem por ela circula. O traço mais marcante, a pegada em forma de fundo de garrafa, indica uma origem relativamente recente, já que o vidro de fábrica só se popularizou no interior tempos depois, com a chegada de produtos industrializados.

Assim como outras criaturas associadas ao sertão, o Pé de Garrafa nasce do cruzamento de tradições distintas: a noção de guardiões da mata, de raiz indígena, se combina ao imaginário rural de caboclos e sertanejos, sempre dispostos a ler sinais estranhos na floresta como indício de seres encantados.

Descrição

Conta-se que o Pé de Garrafa mora nas partes mais densas da mata e quase nunca se mostra. O que chega até as pessoas são os gritos — parecidos com um chamado — e as marcas redondas deixadas no solo úmido, idênticas ao fundo de uma garrafa. Quem escuta o grito e segue na direção dele costuma perder o rumo, rodando em círculos até cair de exaustão.

As descrições de sua aparência mudam de relato para relato. Em algumas, tem forma humana, corpo cheio de pelos e uma única perna, terminada num pé redondo como o fundo ou o gargalo de uma garrafa. Em outras, aparece como criatura entre o homem e o bicho, toda coberta de pelos. Segundo se diz, seria quase impossível feri-lo, havendo apenas um ponto vulnerável em todo o corpo, geralmente apontado como o umbigo.

Topar com o Pé de Garrafa é descrito como experiência capaz de tirar o sono de qualquer um: quem insiste em persegui-lo corre o risco de passar dias perdido na mata, voltar doente ou simplesmente não voltar mais. Por essa razão, os mais velhos aconselhavam a nunca responder a gritos estranhos vindos da floresta, nem seguir pegadas desconhecidas.

Características

  • Deixa pegadas no formato do fundo arredondado de uma garrafa
  • Solta um grito que se parece com um chamado humano na mata
  • Faz os caçadores perderem o rumo, rodando em círculos
  • Nas descrições mais comuns, possui apenas uma perna
  • Tem corpo peludo, misto de traços humanos e animais
  • Só é vulnerável num único ponto do corpo, como o umbigo

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:

Mato Grosso e Goiás

Nessa versão, o Pé de Garrafa dificilmente se mostra: é conhecido pelos gritos que atraem caçadores para dentro da floresta. Quem atende ao chamado perde o senso de direção e só encontra, depois, as pegadas redondas espalhadas pelo local.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

O Pé de Garrafa dá forma a um temor bem concreto de quem vive no sertão: o de se perder dentro da mata. Os gritos sem origem definida e as pegadas estranhas funcionam como sinais que escapam à compreensão, lembrando a quem trabalha ou atravessa aquelas terras que a floresta guarda riscos reais.

Como outros guardiões das matas, essa figura também serve de freio contra o abuso dos recursos naturais. A lenda ensina prudência: não seguir o que não se conhece, respeitar o território dos animais e reconhecer os limites do ser humano diante do ambiente selvagem.

Curiosidades

  • A pegada em forma de fundo de garrafa está entre as imagens mais originais de todo o folclore brasileiro.
  • O umbigo como ponto vulnerável também aparece ligado a outras criaturas, como o Mapinguari.
  • É comum comparar essa figura ao Curupira, que de modo semelhante usa pegadas para desorientar caçadores.
  • Sons de animais e o eco típico da mata podem ter alimentado as histórias sobre os gritos dessa criatura.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)

O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.

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