Festa / tradição · Regional

Cavalhadas

Também conhecido(a) como Cavalhada, Cavalhadas de Pirenópolis e Batalha de mouros e cristãos

Doze cavaleiros vestem azul, doze vestem vermelho, e por três dias um campo nos arredores de Pirenópolis (GO) se transforma em arena medieval: ali se repete, a cavalo, a disputa entre cristãos e mouros que embala a Festa do Divino.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.

Origem

Lá na Península Ibérica, ainda na Idade Média, nobres praticavam torneios e jogos equestres que, com o tempo, passaram a representar o confronto entre cristãos e mouros — eco das guerras da Reconquista. Livros e folhetos populares emprestaram a esses jogos as lendas de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, tecendo um enredo que atravessaria o oceano junto com os colonizadores portugueses.

Chegada ao Brasil colonial, a cavalhada passou a integrar festas religiosas e comemorações oficiais. O que começara como diversão de elites foi, pouco a pouco, se tornando atividade de comunidades do interior, sobretudo nas regiões de tradição pecuária, onde montar bem a cavalo já era motivo de orgulho.

Em Pirenópolis, cidade goiana erguida sobre o antigo ciclo do ouro, a cavalhada encontrou terreno fértil ao se unir à Festa do Divino Espírito Santo. Sustentada ano após ano por gerações da mesma comunidade, essa aliança entre as duas tradições rendeu um dos maiores atrativos culturais do Centro-Oeste.

Descrição

Vestir a máscara de papel machê é assumir, por alguns dias, outra identidade. Quem brinca de mascarado escolhe uma cabeça de boi, onça ou outro bicho, enfeita os chifres com flores e sai pelas ruas e pelo campo sem se identificar, provocando o público e emprestando à cavalhada um ar de carnaval que contrasta com a solenidade dos cavaleiros.

Para os vinte e quatro cavaleiros da versão mais célebre, a de Pirenópolis, a farda já define o papel: azul veste quem representa os cristãos, vermelho veste quem representa os mouros. Durante três dias, embaixadas, desafios, corridas e combates simulados com lanças, espadas e pistolas de festim se sucedem no campo preparado para a festa, até o desfecho de sempre — a derrota, a conversão e o batismo do exército mouro.

Antes de calçar as botas e montar, os cavaleiros ensaiam por semanas os movimentos que vão exibir: capacetes emplumados, mantos coloridos e roupas de cetim ou veludo bordadas pesam sobre o corpo, enquanto o cavalo, enfeitado de flores, fitas e peitorais brilhantes, precisa responder a comandos precisos. Uma das provas mais aplaudidas exige retirar, com a lança e a toda velocidade, uma cabeça de madeira ou argolas suspensas no ar.

Características

  • Mascarados de papel machê circulando entre o público antes e durante a disputa
  • Vinte e quatro cavaleiros divididos em dois exércitos: azul para os cristãos, vermelho para os mouros
  • Embaixadas, desafios e combates simulados espalhados por três dias de festa
  • Desfecho sempre igual: os mouros derrotados se convertem e recebem o batismo
  • Capacetes emplumados, mantos coloridos e roupas bordadas vestindo os cavaleiros
  • Cavalos enfeitados de flores, fitas e peitorais brilhantes
  • Prova de retirar argolas ou cabeças de madeira com a lança, em alta velocidade

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:

Pirenópolis (GO)

É em torno do domingo de Pentecostes, entre maio e junho, que Pirenópolis se prepara para sua cavalhada mais célebre, ao lado da Festa do Divino. Meses de preparo antecedem a disputa, e a cidade inteira — dos bordadores aos donos dos cavalos — se mobiliza para manter viva a tradição mais conhecida do país no gênero.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

O riso dos mascarados funciona como válvula de escape dentro de uma encenação solene: eles driblam a pompa dos cavaleiros, brincam com o público e lembram que, nas festas brasileiras, o sagrado quase sempre caminha ao lado do profano.

Repetida ano após ano, a vitória cristã sobre os mouros celebra, em tom de festa, uma herança ibérica trazida pela colonização. Ao reencenar esse enredo medieval em pleno sertão goiano, a comunidade de Pirenópolis renova seu vínculo com um passado distante e, ao mesmo tempo, reafirma sua própria devoção.

Curiosidades

  • Tentar descobrir quem está por trás de cada máscara é parte da graça: os mascarados raramente se revelam, mesmo depois da festa terminada.
  • Em muitas famílias de Pirenópolis, tornar-se cavaleiro é honra herdada do pai ou do avô, repassada como quem passa um sobrenome.
  • As máscaras de papel machê produzidas na cidade acabaram virando peças de artesanato disputadas por colecionadores de fora.
  • A trama de Carlos Magno e dos Doze Pares de França chegou ao sertão goiano também pelos livros populares, lidos em voz alta e coletivamente em rodas de leitura do interior.

Fontes de referência

  1. Carlos Rodrigues Brandão, Cavalhadas de Pirenópolis (1974)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
  4. Carlos Rodrigues Brandão, O Divino, o Santo e a Senhora (1978)

O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.

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