Festa / tradição · Conhecida em todo o país

Folia de Reis

Também conhecido(a) como Reisado, Companhia de Reis, Terno de Reis, Santos Reis e Folia de Santos Reis

Entre o Natal e o Dia de Reis, casas e sítios recebem a visita de companhias de foliões que, em canto, recontam a jornada dos Reis Magos até o Menino Jesus.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.

Origem

Fixada sobretudo no campo brasileiro, a Folia de Reis foi se misturando a outras heranças ao longo da Colônia e do Império. Músicos negros e ritmos de raiz afro-brasileira deram à folia uma sonoridade própria em várias regiões, enquanto se consolidava a organização em torno de um mestre, de uma bandeira e de um compromisso devocional — arranjo que ainda está vivo em muitas comunidades.

As raízes da tradição remontam às celebrações natalinas da Península Ibérica, sobretudo às janeiras e reisadas portuguesas: grupos saíam de porta em porta anunciando o nascimento de Jesus e recolhendo donativos. Esse costume atravessou o Atlântico com os colonizadores, reforçado pela catequese, que via em música e teatro popular um recurso eficaz para ensinar a narrativa cristã.

O século XX trouxe outro deslocamento: o êxodo rural levou as folias para as periferias das grandes cidades, reconstruídas por migrantes mineiros, goianos, fluminenses e nordestinos que carregaram a tradição na bagagem. É esse movimento que explica por que, hoje, encontros e festivais reúnem grupos de localidades bem diferentes, e vários municípios dedicam festejos próprios ao Dia de Reis.

Descrição

O objeto mais sagrado de qualquer companhia é a bandeira: estandarte decorado com imagens dos Reis Magos, da Sagrada Família ou do Divino, enfeitado de fitas e flores. Ao recebê-la, os moradores beijam o pano e amarram fitas carregadas de pedidos, deixando-a circular pelos cômodos da casa como gesto de bênção — tudo isso enquanto os foliões saúdam em versos quem os recebe e pedem proteção para a família.

Quem segue a jornada encontra casas, sítios e bairros visitados por companhias que representam a viagem dos Reis Magos guiados pela estrela até Belém, entre 24 ou 25 de dezembro e o Dia de Reis, em 6 de janeiro — ou, em certas regiões, até 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Quem recebe o grupo costuma oferecer comida, bebida e contribuições, recursos que ajudam a custear a festa de encerramento.

Entre os personagens, ninguém chama tanta atenção quanto o palhaço, também chamado de bastião: máscara e roupa colorida, e em algumas versões um representante dos soldados de Herodes em busca do Menino Jesus — por isso proibido, em certos momentos do ritual, de se aproximar do presépio ou da bandeira. Dança, faz acrobacias, improvisa versos, arranca risadas e arrecada contribuições pelo caminho.

Características

  • Giro de porta em porta entre o Natal e o Dia de Reis
  • Bandeira de Santos Reis como centro da devoção do grupo
  • Viola, caixa, pandeiro, sanfona, cavaquinho e rabeca puxando o acompanhamento
  • Palhaços mascarados, também chamados de bastiões ou Herodes
  • Mestre e contramestre à frente dos cantos e da organização
  • Vozes sobrepostas em versos de chegada, pedido e despedida
  • Refeição farta oferecida à comunidade no encerramento

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:

Minas Gerais e Goiás

No interior mineiro e goiano, a pé ou a cavalo, as folias cumprem jornadas longas por fazendas e povoados, em cantos de várias vozes que alcançam notas agudas. Nasce com frequência de uma promessa a devoção aos Santos Reis, e o giro completo pode se estender por vários dias.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

A folia funciona como escola viva de transmissão oral: desde pequenas, crianças aprendem versos, toques e funções dentro do grupo, e o posto de mestre costuma passar de pai para filho. Nas cidades, as companhias se tornam espaço de convívio e de memória para comunidades de migrantes.

Ao acolher a bandeira, cada família se torna, ainda que simbolicamente, a casa onde os reis encontraram o Menino: a Folia de Reis reatualiza assim a peregrinação dos Magos como experiência comunitária, e a troca entre cantos e ofertas reafirma valores de hospitalidade, generosidade e fé.

Curiosidades

  • Em diversas cidades, o 6 de janeiro também é a data escolhida para desmontar o presépio e os enfeites natalinos.
  • Diz a tradição que a companhia nunca volta pelo mesmo caminho da ida — lembrança de que os próprios Reis Magos teriam escolhido outra rota para escapar de Herodes.
  • Há regras bem definidas sobre os espaços que os palhaços podem ou não ocupar durante o ritual, e eles costumam esconder o rosto para não serem reconhecidos.
  • Fitas amarradas à bandeira por devotos se acumulam ao longo do tempo, carregando pedidos e agradecimentos de muitos anos diferentes.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  2. Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
  3. Carlos Rodrigues Brandão, Sacerdotes de Viola (1981)
  4. Sílvio Romero, Cantos Populares do Brasil (1883)

O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.

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