Festa / tradição · Conhecida em todo o país
Congada
Também conhecido(a) como Congado, Congo, Reinado, Reisado de Congo e Ticumbi
Coroas, capas e cetros avançam ao som de tambores e gungas, enquanto guardas de congo e moçambique dividem a rua em devoção a Nossa Senhora do Rosário: assim comunidades afro-brasileiras celebram, todos os anos, a Congada.
Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.
Origem
No Brasil colonial, africanos e seus descendentes se reuniam em associações religiosas, as irmandades do Rosário dos Homens Pretos, dedicadas a Nossa Senhora. Foi nelas que surgiu o hábito de escolher uma rainha e um rei do Congo e coroá-los simbolicamente. Com isso se resgatava a lembrança de reinos da África Central, como o antigo Reino do Congo, cujos soberanos haviam abraçado o catolicismo já no século XV.
Desde os primeiros séculos da colonização, autoridades e viajantes da Colônia deixaram registros de reis negros sendo coroados em várias partes do Brasil. A prática enfrentou restrições e desconfiança, mas se manteve como espaço de ajuda mútua, de organização da comunidade e de afirmação da dignidade de pessoas libertas e escravizadas. Com o tempo, a festa foi incorporando embaixadas, batalhas encenadas, uma grande variedade de toques de tambor e cantos em que o português se mescla a palavras de origem banto.
Depois da Abolição, foram comunidades e famílias negras que mantiveram a Congada viva, sobretudo em São Paulo, Goiás e Minas Gerais. Atualmente, ela figura entre as expressões mais importantes da cultura afro-brasileira, juntando memória africana, fé católica e uma história de resistência.
Descrição
Entrar numa guarda de congo é vestir cores vivas e fitas e abrir o cortejo com passos animados; entrar numa guarda de moçambique é calçar gungas — chocalhos presos aos tornozelos —, vestir branco quase sempre e dançar de modo contido e solene, carregando sobre si a responsabilidade de guardar a coroa e os reis. Em algumas localidades, o quadro se completa com candombes, caboclinhos e vilões, além de catopês e marujos, cada um com seu próprio jeito de andar.
No Reinado, nome que a festa recebe em Minas Gerais, capa, coroa e cetro vestem os monarcas escolhidos pela comunidade, escoltados por guardas, ternos e cortes que abrem caminho com cantos e toques de tambor. Ao redor desse cortejo se organiza uma programação inteira: missas e procissões, mastros levantados com as bandeiras dos santos, visitas às casas dos festeiros e também refeições coletivas.
Nos cantos entoados pelo grupo, louvores a São Benedito, a Santa Ifigênia e a Nossa Senhora do Rosário se alternam com lembranças do cativeiro e dos antepassados. Esse fio devocional fica mais claro com um relato bastante difundido: diz-se que a imagem de Nossa Senhora do Rosário apareceu nas águas do mar e resistiu a toda tentativa de tirá-la de lá, até que os tambores dos negros, tocados com fé, finalmente a fizeram se mover.
Características
- Guardas de congo abrindo o cortejo com dança animada e trajes coloridos
- Moçambiqueiros de branco, gungas nos tornozelos, guardando a coroa e os reis
- Tambores, caixas, patangomes e reco-recos puxando o ritmo da festa
- Rainhas e reis do Congo, eleitos pela própria comunidade, recebendo a coroa
- Mastros erguidos com as bandeiras dos santos homenageados
- Louvores aos antepassados em cantos salpicados de palavras de origem banto
- Devoção a São Benedito e a Santa Ifigênia, além de Nossa Senhora do Rosário
Versões da história
Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:
Minas Gerais
Em cidades mineiras como Belo Horizonte, Serro e Oliveira, guardas de moçambique e de congo, além de candombe, catopês e marujos, se reúnem sob os nomes de Congado ou Reinado. Ali, os capitães de cada guarda seguem transmitindo, com cuidado, rituais que se estendem por vários dias de celebração.
Goiás
Em Catalão, uma das celebrações mais conhecidas do país em devoção a Nossa Senhora do Rosário toma as ruas durante o mês de outubro. Desfilam ali dezenas de ternos — de vilão, de catupé, de moçambique e de congo — enquanto o som dos tambores domina a cidade de ponta a ponta.
São Paulo e Espírito Santo
Em São Paulo, no litoral e no Vale do Paraíba, o rei do Congo e embaixadores de outros reinos se enfrentam em embaixadas e batalhas reconstruídas por diálogos cantados. Já no Espírito Santo a tradição toma outro rumo e se liga ao ticumbi e às bandas de congo; o ticumbi, folguedo do norte capixaba, também encena disputas entre reis em honra a São Benedito.
Significado cultural
Entrar numa guarda é assumir um compromisso que é espiritual e também familiar: honrar santos, antepassados e os mais velhos que passaram adiante toques e cantos. Essa teia entre fé, música e comunidade é o que faz da Congada um patrimônio vivo, renovado a cada nova geração de congadeiros.
Coroar reis negros dentro do calendário católico reacende a lembrança de reinos africanos e dos ancestrais trazidos à força para o Brasil, afirmando dignidade e autoridade num contexto historicamente marcado pela escravidão. Não por acaso, muitos pesquisadores leem a Congada como um espaço de resistência cultural.
Curiosidades
- A maior parte das celebrações acontece em outubro, mês dedicado a Nossa Senhora do Rosário, mas há também festas em agosto, em maio e em outras épocas do ano.
- Conduzir e proteger a coroa, tratada como o objeto mais sagrado da festa, é tarefa tradicionalmente reservada aos moçambiqueiros.
- Antes de cada apresentação, é comum que as celebrações reservem cuidados rituais especiais aos tambores do grupo.
- Sobre a santa que teria emergido do mar, circulam várias versões da história, cada uma apontando grupos diferentes que teriam tentado, sem sucesso, puxá-la para fora da água.
Fontes de referência
- Leda Maria Martins, Afrografias da Memória: o Reinado do Rosário no Jatobá (1997)
- Marina de Mello e Souza, Reis Negros no Brasil Escravista: história da festa de coroação de rei congo (2002)
- Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
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