Festa / tradição · Regional

Maracatu

Também conhecido(a) como Maracatu Nação, Maracatu de Baque Virado, Maracatu Rural e Maracatu de Baque Solto

Lantejoulas brilham, uma boneca sagrada passa de mão em mão, e tambores graves conduzem reis e rainhas pelas ruas de Pernambuco: no Carnaval pernambucano, o maracatu nação e o maracatu rural dividem o palco, cada um com seu próprio tambor, seu próprio ritmo.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.

Origem

A vertente mais antiga, o maracatu de baque virado — ou maracatu nação —, nasceu das coroações de reis e rainhas do Congo promovidas por africanos e seus descendentes no Recife colonial, dentro das irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Esses cortejos reais, com o tempo, deram origem a agremiações independentes, as nações, que até hoje mantêm vínculo estreito com terreiros de matriz africana, como o xangô pernambucano.

Já o maracatu rural, de baque solto, tem formação bem mais recente: surgiu entre trabalhadores da cana-de-açúcar na Zona da Mata Norte, bebendo de folguedos como o cavalo-marinho, os caboclinhos e os pastoris. Ali se misturaram, numa expressão própria do universo canavieiro, heranças africanas, indígenas e europeias.

O século XX não foi fácil para nenhuma das duas vertentes, perseguidas e vistas com preconceito por boa parte da sociedade pernambucana; ainda assim, pesquisadores como Guerra-Peixe e Katarina Real se dedicaram a documentar sua música e sua organização interna. Décadas mais tarde, o movimento manguebeat, com Chico Science e Nação Zumbi à frente, projetou os ritmos do maracatu para o país e para fora dele.

Descrição

Vestir-se de caboclo de lança é carregar peso e exibição ao mesmo tempo: a cabeleira de fitas de celofane cobre boa parte do corpo, a gola bordada de lantejoulas brilha ao sol, chocalhos presos às costas marcam cada passo, e a lança decorada precisa girar enquanto o dançarino corre e faz manobras pelas ruas — tudo isso ao som do baque solto, puxado por uma pequena orquestra de sopros e percussão, e dos versos que o mestre improvisa na hora.

No maracatu nação, quem carrega a calunga nos braços — boneca ricamente ornamentada que representa entidades e ancestrais — é a dama do paço, guardiã de um dos objetos mais sagrados da festa. Ao redor dela e do pálio que protege o rei e a rainha, caminham duques, príncipes, embaixadores, baianas, lanceiros e o porta-estandarte, todos no mesmo passo lento imposto pelo baque virado, som grave que nasce das alfaias, caixas, gonguê e mineiro.

Recife, Olinda e cidades da Zona da Mata, caso de Nazaré da Mata, recebem as duas vertentes principalmente durante o Carnaval, embora os preparativos ocupem o ano inteiro e muitas nações cumpram rituais religiosos antes de sair às ruas. Na segunda-feira de Carnaval, a Noite dos Tambores Silenciosos reúne as nações recifenses em torno de uma só homenagem: a memória dos ancestrais escravizados.

Características

  • Cabeleira de fitas de celofane e lança decorada vestindo o caboclo de lança
  • Pequena orquestra de sopros e percussão sustentando o baque solto
  • Cortejo real com rei, rainha, pálio e porta-estandarte no maracatu nação
  • Calunga, boneca sagrada, nos braços da dama do paço
  • Alfaias, caixas, gonguê e mineiro tocando o baque virado
  • Vínculo das nações com terreiros de matriz africana
  • Ruas de Recife, Olinda e da Zona da Mata tomadas durante o Carnaval

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:

Recife e Olinda (PE)

Centenárias ou recém-fundadas, as nações de Recife e Olinda preservam o cortejo real e o baque virado como marca registrada. Estandarte, cores e calunga variam de uma para outra, mas o vínculo com terreiros de xangô, que orientam os preparativos espirituais da festa, costuma se repetir.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

Força física, exagero visual e fama de guerreiro protetor cercam o caboclo de lança — figura que celebra, à sua maneira, a vida de quem trabalha na cana. É em torno dele que o maracatu rural tece laços de vizinhança e identidade em regiões historicamente marcadas pelo trabalho pesado.

Calunga, pálio e terreiro guardam, juntos, a memória das coroações de reis negros e da organização das comunidades afro-pernambucanas. Por isso o maracatu nação carrega, dentro do Carnaval, um território próprio de ancestralidade, devoção e resistência cultural.

Curiosidades

  • Entre os símbolos culturais de Pernambuco mais estampados em cartões-postais do Carnaval do Recife está justamente o maracatu.
  • O IPHAN registrou tanto o maracatu nação quanto o maracatu de baque solto como patrimônio cultural imaterial do Brasil.
  • Milhares de tiras de papel celofane podem compor a cabeleira de um único caboclo de lança, tornando o figurino surpreendentemente pesado sobre os ombros do dançarino.
  • Um cravo branco na boca do caboclo de lança costuma ser lido, em certas interpretações, como forma de proteção espiritual.

Fontes de referência

  1. César Guerra-Peixe, Maracatus do Recife (1955)
  2. Katarina Real, O Folclore no Carnaval do Recife (1967)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  4. Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)

O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.

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