Festa / tradição · Regional

Círio de Nazaré

Também conhecido(a) como Círio de Nossa Senhora de Nazaré, Festa de Nazaré e Natal dos paraenses

É em Belém, no segundo domingo de outubro, que multidões de romeiros se reúnem em torno da imagem de Nossa Senhora de Nazaré: quem chega à capital paraense nesses dias encontra uma das maiores procissões católicas do país.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.

Origem

Antes de se enraizar no Pará, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré já percorria Portugal há séculos, ligada a uma lenda medieval de salvamento milagroso. Essa fé viajou para a colônia recém-fundada e, ainda no final do século XVIII, resultou na primeira procissão do Círio — nome herdado do latim cereus, a vela grossa que os devotos carregam até hoje nas celebrações, com aprovação das autoridades coloniais da época.

Há quem remonte o santuário de Belém a um episódio do início do século XVIII: um caboclo de nome Plácido José de Souza teria encontrado, às margens de um igarapé, uma pequena imagem da santa. Levada para casa, ela retornou por conta própria ao local do achado, sinal lido como pedido para que ali se erguesse um espaço de devoção — e foi exatamente ali que nasceu a ermida que deu origem à atual Basílica Santuário de Nazaré.

Séculos de celebração acrescentaram à festa peças que parecem indissociáveis dela, como a corda, a romaria fluvial e o arraial, incorporadas entre os séculos XIX e XX. Tanto o IPHAN quanto a UNESCO reconheceram, mais tarde, o valor do Círio de Nazaré — o primeiro como patrimônio cultural do Brasil, a segunda como patrimônio imaterial da humanidade.

Descrição

Quem acompanha o Círio de perto vê a imagem avançar sobre a berlinda, carro enfeitado de flores, puxada por uma corda enorme que milhares de devotos seguram ao mesmo tempo — gesto encarado como ato de fé e sacrifício. Descalços sob o sol, muitos caminham cumprindo promessas antigas, e não é raro cruzar com quem carrega réplicas de cera, como casas, partes do corpo ou barcos, em agradecimento por graças recebidas.

O cortejo central é celebrado no segundo domingo de outubro, mas um calendário próprio de romarias o antecede. Na véspera, a baía do Guajará é tomada pela romaria fluvial, escoltada por numerosas embarcações; segue-se a moto romaria e, à noite, a trasladação, que conduz a santa em sentido contrário ao do Círio. Somente na manhã de domingo o cortejo principal atravessa o centro histórico de Belém até a Praça Santuário, percurso que se estende por horas.

Batizada de quadra nazarena, a quinzena de festejos que rodeia o cortejo reúne missas, novenas, apresentações culturais e um arraial montado perto da basílica. É também quando famílias paraenses se sentam para o almoço tradicional, com pratos regionais na mesa, e parentes que vivem fora costumam voltar para casa — hábito que deu à festa o apelido de “Natal dos paraenses”. Encerra o ciclo o Recírio, procissão que devolve a imagem ao seu lugar de origem.

Características

  • Multidão de devotos segurando a corda enorme amarrada à berlinda
  • Berlinda florida que leva a imagem de Nossa Senhora de Nazaré pelas ruas do centro histórico
  • Caminhada descalça e ex-votos de cera pagando promessas antigas
  • Cortejo principal reservado ao segundo domingo de outubro, em Belém
  • Romaria fluvial, moto romaria, trasladação e Recírio completando o calendário
  • Maniçoba e pato no tucupi servidos no tradicional almoço do Círio
  • Artesanato de miriti vendido como lembrança típica da quadra nazarena

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:

Belém (PA)

Em Belém está a versão mais conhecida do Círio, contada entre as maiores manifestações católicas do mundo. Semanas de programação antecedem o ápice: tudo começa com a revelação do manto da santa, trocado a cada edição, e só termina com o Recírio, que fecha a quadra nazarena.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

Mais do que rito, o Círio traduz um vínculo pessoal entre devoto e santa, vivido pelo corpo: promessas cumpridas, ex-votos deixados e o esforço físico de puxar a corda falam de uma fé em que sacrifício e gratidão se misturam.

A festa também ajuda a definir quem nasce e vive em Belém, somando sabores de raiz indígena, artesanato ribeirinho e a vida urbana da capital paraense. Para pesquisadores, é justamente essa costura entre o sagrado e o festivo, entre a devoção individual e a celebração coletiva, que sustenta a força do Círio ao longo de mais de dois séculos.

Curiosidades

  • O manto que veste a imagem é renovado todos os anos, e sua apresentação é esperada com ansiedade pelos devotos.
  • Pedaços da corda usada no cortejo costumam ser disputados pelos fiéis ao fim da procissão, guardados depois como lembrança de devoção.
  • Os brinquedos de miriti, talhados na medula leve de uma palmeira amazônica, são produzidos sobretudo em Abaetetuba e vendidos durante toda a quadra nazarena.
  • Preparar a maniçoba exige paciência: as folhas de mandioca moídas precisam cozinhar por vários dias até perderem a toxidade.

Fontes de referência

  1. Isidoro Alves, O Carnaval Devoto: um estudo sobre a festa de Nazaré, em Belém (1980)
  2. IPHAN, Dossiê de registro do Círio de Nossa Senhora de Nazaré
  3. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  4. Vicente Salles, O Negro no Pará (1971)

O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.

Verbetes relacionados

Verbete aleatório

Festa / tradição · Norte

Carimbó

Um tambor de tronco escavado marca o compasso, saias rodam no ar, e um lenço cai no chão para começar a brincadeira da dança do peru: assim o carimbó…

Festa / tradição · Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste +

Festa do Divino Espírito Santo

Uma bandeira vermelha estampada com a pomba branca percorre ruas e sítios, uma criança assume a coroa de imperador por um dia, e a comida se reparte…

Personagem · Norte

Matinta Perera

É comum, no Pará, ouvir falar de uma mulher capaz de virar ave à noite, assobiar sobre os telhados e só se calar quando alguém promete tabaco ou…

História de origem · Norte, Nordeste e Centro-Oeste

Lenda da Mandioca

Quem percorre o interior amazônico ouve a história da menina Mani: morta ainda pequena, foi sepultada dentro da própria oca, e de sua cova brotou a…

Festa / tradição · Norte

Festival Folclórico de Parintins

Disputa anual entre Garantido e Caprichoso que transforma Parintins (AM) em arena de lendas e cultura amazônica.

Festa / tradição · Nordeste, Norte e Sul

Bumba meu boi

Auto popular em que um boi morre e ressuscita entre cantos, tambores e humor; no Maranhão, domina as festas de junho.