Criatura · Local
Labatut
Também conhecido(a) como Papa-Menino do Sertão
Um gigante caolho, de dentes enormes e cabelos compridos, percorre à noite o sertão do Rio Grande do Norte e do Ceará à procura de gente: é o Labatut, que teria no “fim do mundo” sua morada.
Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 2 versões diferentes, reunidas mais abaixo.
Origem
Chama atenção, de imediato, o nome do monstro: soa estrangeiro nesse sertão aberto do Rio Grande do Norte e de áreas vizinhas do Ceará. A maioria dos estudiosos relaciona a palavra ao militar de origem francesa Pedro Labatut, que lutou no Brasil pela Independência e depois comandou campanhas no Nordeste, deixando fama de dureza entre a população. A memória de um comandante temido teria assim se transformado, com o passar das gerações, no nome do monstro — embora não se saiba ao certo como essa associação se formou.
Câmara Cascudo registrou a figura e a incluiu entre os devoradores do folclore, voltados sobretudo a assustar crianças. Diferente de boa parte das criaturas brasileiras, ligadas à mata ou aos rios, o Labatut escolheu como domínio justamente o sertão seco e aberto — território bem distinto do habitat costumeiro desses seres.
O caso não é exclusivo do sertão nordestino: em várias partes do mundo, nomes de figuras históricas temidas terminaram batizando bichos-papões e monstros. Aqui, a lembrança vaga de um estrangeiro severo parece ter se somado ao antigo motivo europeu do gigante de um olho só, conhecido desde os ciclopes da mitologia grega.
Descrição
Vive, segundo a tradição sertaneja, no chamado “fim do mundo” — expressão para os lugares mais remotos e desabitados da região —, de onde sai à noite à procura de alimento. Devora gente, mas tem preferência por crianças, cuja carne seria mais tenra; por isso a figura serviu, durante gerações, para manter os pequenos dentro de casa depois do sol se pôr.
Um único olho no meio da testa, cabelos longos e desgrenhados, corpo coberto de pelos e dentes enormes — comparáveis a presas de elefante — compõem a aparência monstruosa desse gigante de forma humana. Os pés, redondos, deixam pegadas que mais parecem rastro de bicho, confundindo quem tenta seguir seu caminho pela caatinga.
Passo pesado e grito ensurdecedor seriam suas marcas sonoras. Em noites sem lua, moradores de casas isoladas dizem já ter escutado o som de algo enorme caminhando pelos arredores da propriedade — sem nenhuma forma conhecida de enfrentá-lo, restando apenas esconder-se e esperar em silêncio até o amanhecer.
Características
- Gigante de aparência humana, porém monstruosa
- Único olho bem no meio da testa
- Dentes enormes, à altura de presas de elefante
- Cabelos longos e corpo tomado por pelos
- Pés redondos, que deixam pegadas confusas
- Mora no “fim do mundo” e caça de preferência à noite
Versões da história
Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:
Rio Grande do Norte
Cascudo registrou, no Rio Grande do Norte, a versão em que o Labatut vive nas chapadas desertas e percorre o sertão à noite, faminto e tido como invencível. Bastava mencionar seu nome para que as crianças das fazendas se calassem na hora.
Ceará e Rio Grande do Norte
Outros relatos preferem a leitura histórica: o Labatut seria lembrança deformada de um militar severo, cujos feitos, repetidos geração após geração, foram se avolumando até transformá-lo em ser sobrenatural devorador de gente.
Significado cultural
Função educativa evidente marca esse monstro, assim como outros devoradores de crianças: manter os pequenos por perto num ambiente hostil, onde a noite, os bichos e as grandes distâncias representavam perigos reais.
Mas o Labatut também é exemplo de como memória histórica e imaginação fantástica se entrelaçam na tradição oral do sertão: a possível ligação com uma figura real, somada ao antigo motivo do gigante caolho, mostra como medo e violência podem virar personagem simbólico nas mãos do povo. Pouco conhecido fora do Nordeste, seu registro ajuda a preservar a diversidade do folclore brasileiro.
Curiosidades
- Os pés redondos da criatura explicariam por que suas pegadas nunca levam a lugar algum.
- Cascudo tratou da figura em Geografia dos Mitos Brasileiros, obra que mapeia mitos por região do país.
- O nome costuma ser associado ao militar francês Pedro Labatut, atuante no Brasil durante o século XIX.
- Entre os poucos monstros do folclore nacional descritos como ciclope, com um olho só, está justamente o Labatut.
Fontes de referência
- Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)
O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.
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