História de origem · Conhecida em todo o país

Lenda do Guaraná

Também conhecido(a) como Origem do Guaraná, Waraná e Lenda dos olhos do menino

Entre os rios Tapajós e Madeira, no Amazonas e no Pará, o povo sateré-mawé guarda a história de uma planta sagrada nascida dos olhos de um menino morto: o guaraná, cujos frutos, até hoje, lembram olhos humanos.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.

Origem

Mais do que um recurso útil, o guaraná é peça central da identidade e da organização social dos sateré-mawé, a ponto de o povo se autodenominar “filhos do guaraná”. A história de sua origem circula tanto em rituais quanto no cotidiano, entrelaçada a outros relatos sagrados sobre a formação do mundo e dos clãs.

A planta (Paullinia cupana), chamada de waraná pelos sateré-mawé, tem sua origem atribuída a esse povo, que ocupa a área entre os rios Tapajós e Madeira — região que inclui municípios como Maués e Parintins, no Amazonas e no Pará. Foram eles que a domesticaram, desenvolvendo técnicas de plantio e preparo mais tarde difundidas pelo país.

Fora das aldeias, a versão mais conhecida foi documentada e recontada ao longo do século XX, com destaque para os estudos de Nunes Pereira sobre os maués. Nesse processo, alguns elementos da narrativa foram simplificados ou substituídos por figuras já populares fora das aldeias, como Tupã e Jurupari, dando origem a versões distintas da mesma história.

Descrição

Fora das aldeias, a versão mais difundida conta que a criança é filha de um casal que a desejava há muito tempo, morta por Jurupari disfarçado de serpente enquanto colhia frutas. Tupã então determina que os olhos do menino sejam plantados, dando origem ao guaraná.

Já na versão sateré-mawé, quem perde o filho é a jovem Onhiámuaçabê, conhecedora das plantas e responsável por um jardim encantado. A criança, muito amada, despertou ciúme nos irmãos da mãe — incapazes de aceitar sua existência —, e foi morta por ordem dos tios ao entrar no jardim para comer castanhas.

Tomada pela dor, a mãe encontrou o corpo do filho, chorou e retirou-lhe os olhos, enterrando-os na terra. Do olho esquerdo brotou, segundo a tradição, o guaraná verdadeiro; do direito, uma variedade sem as mesmas propriedades. Ela anunciou então que da planta nasceriam força e alegria para seu povo — e que o menino voltaria a viver, já que em algumas versões é do corpo sepultado que nasce o primeiro sateré-mawé. Em ambas as narrativas, vale notar, o fruto maduro — sementes escuras envoltas em polpa branca e casca vermelha — lembra um olho humano.

Características

  • Tradicionalmente atribuído ao povo sateré-mawé
  • Envolve a morte de uma criança e o plantio de seus olhos
  • Distingue guaraná verdadeiro e guaraná falso
  • Fruto maduro parecido com um olho humano
  • Planta associada a força, saúde e unidade do povo
  • Relato de origem de uma planta considerada sagrada
  • Circula em versão indígena e em versões difundidas fora das aldeias

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:

Sateré-mawé (AM e PA)

Tomados pela inveja, os tios de Onhiámuaçabê ordenam a morte de seu filho — fato que, entre os sateré-mawé, está diretamente ligado à origem do próprio povo, que se considera descendente da planta. Enterrados pela mãe, os olhos da criança dão origem ao guaraná verdadeiro e ao falso; a grafia do nome dela, vale notar, varia conforme a fonte consultada.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

A relação entre o povo sateré-mawé e a planta nasce dessa lenda, que dá sentido a rituais, normas de cultivo e ao compartilhamento coletivo do çapó, bebida tradicional feita a partir do guaraná. Uma perda dolorosa se converte, assim, em origem de vida — tema que volta a aparecer em outras histórias sobre o surgimento de plantas cultivadas.

Símbolo nacional associado a uma das bebidas mais consumidas no Brasil, a lenda virou isso fora das aldeias. Mas ela pertence, antes de tudo, a um povo que ainda existe, mantém o cultivo tradicional do waraná e reivindica reconhecimento pelo conhecimento acumulado sobre a planta.

Curiosidades

  • Considerados os primeiros a domesticar a espécie, os sateré-mawé se identificam como “filhos do guaraná”.
  • Uma festa dedicada ao fruto acontece todo ano em Maués, no Amazonas, município conhecido como terra do guaraná.
  • Feito de guaraná ralado em água, o çapó costuma circular numa cuia compartilhada entre os presentes.
  • O guaraná concentra mais cafeína do que o café, dado que explica sua fama de estimulante natural.

Fontes de referência

  1. Nunes Pereira, Os Índios Maués (1954)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)

O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.

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