Elemento · Regional
Muiraquitã
Também conhecido(a) como Muyrakytã, Pedra das Amazonas, Pedra verde e Amuleto das Icamiabas
Esculpido quase sempre em pedra verde e com formato de rã, o muiraquitã é o amuleto que sítios arqueológicos do baixo Amazonas guardam até hoje — peça que a tradição associa às guerreiras Icamiabas e à sorte no amor.
Narrativa da tradição oral. O que você lerá a seguir é uma lenda ou tradição do folclore brasileiro, contada de geração em geração em diferentes paragens do país. Ela registra crenças e histórias populares como patrimônio cultural, não como fato histórico comprovado. Esta narrativa aparece em 3 versões diferentes, reunidas mais abaixo.
Origem
Essas peças chamaram a atenção de viajantes e cronistas desde o período colonial, que as associavam a histórias sobre mulheres guerreiras na Amazônia. No século XIX, o naturalista Barbosa Rodrigues dedicou-se especificamente ao estudo dos muiraquitãs, ajudando a divulgar tanto o conhecimento sobre os objetos quanto as narrativas ligadas a eles.
Pequenos, esculpidos quase sempre em pedra verde, os muiraquitãs são encontrados em sítios arqueológicos do baixo Amazonas — sobretudo nas áreas dos rios Tapajós, Trombetas e Nhamundá, no Pará. O formato de rã ou sapo é o mais comum, mas há peças com outros animais e figuras humanas. Boa parte desses achados é atribuída pelos arqueólogos às sociedades indígenas que ocuparam a região de Santarém séculos antes da chegada dos europeus.
A literatura modernista deu ao muiraquitã ainda mais visibilidade, consolidando-o no imaginário popular como amuleto de sorte e proteção. Quem visita cidades como Santarém, Óbidos e Belém hoje encontra réplicas do objeto à venda, vendidas como lembrança e símbolo de identidade regional.
Descrição
Até hoje, o muiraquitã é visto como talismã de grande poder entre famílias amazônicas, que o passam de geração em geração como bem de grande valor. Segundo a tradição, seu dono teria sorte no amor, na saúde e na fortuna, além de proteção contra doenças e espíritos maléficos.
Essa crença remonta à lenda das Icamiabas, povo de mulheres guerreiras que, segundo a tradição, vivia na região do rio Nhamundá e não admitia homens entre si. Uma vez por ano, durante celebração dedicada à Lua, elas recebiam guerreiros de uma nação vizinha num lago sagrado — o Espelho da Lua, ou Iaci-uaruá —, onde passavam a noite em companhia deles; desses encontros nasciam os filhos das guerreiras.
À meia-noite, contam, as Icamiabas mergulhavam no lago para retirar do fundo uma argila verde e macia. Era moldada em forma de rãs, peixes e outros bichos e, assim que saía da água, endurecia e se transformava em pedra. Os objetos eram entregues aos guerreiros como presente e lembrança, na crença de que trariam felicidade, fertilidade e proteção.
Características
- Achado em sítios arqueológicos do baixo Amazonas
- Esculpido em pedra, quase sempre verde
- Formato mais frequente: rã ou sapo
- Na lenda, moldado no fundo do lago Espelho da Lua
- Associado às guerreiras Icamiabas
- Tido como fonte de sorte, amor e proteção
- Símbolo de identidade cultural na região paraense
Versões da história
Como toda história passada de boca em boca, esta narrativa muda de acordo com quem conta e o lugar onde é contada. Conheça abaixo as versões mais conhecidas pelo país:
Rio Nhamundá (PA e AM)
A versão mais conhecida vem do rio Nhamundá: em noite de lua, as guerreiras retiram do fundo do lago uma argila verde, esculpem-na e a oferecem aos homens. Ao contato com o ar, o material se solidifica — e assim nascem os muiraquitãs, lembranças de um encontro sagrado.
Relatos coloniais
Mulheres guerreiras na Amazônia já eram mencionadas por cronistas europeus desde o século XVI, numa comparação com as amazonas da mitologia grega que terminou batizando o próprio rio. Para esses viajantes, os muiraquitãs serviam de prova da riqueza e do poder dessas guerreiras.
Literatura modernista
Mário de Andrade reaproveitou o amuleto em Macunaíma: o protagonista o recebe de Ci, a Mãe do Mato, e logo o perde. A trama passa boa parte do tempo atrás do objeto, que acaba nas mãos de um colecionador rico em São Paulo, numa releitura crítica da lenda tradicional.
Significado cultural
Arqueologia, mito e identidade cultural se encontram no muiraquitã. A sofisticação artística das sociedades indígenas que ocuparam o baixo Amazonas antes da colonização fica comprovada no objeto concreto, enquanto a tradição oral usa a peça para expressar fertilidade, proteção e a conexão entre pessoas, água e Lua.
Fascínio e estranhamento em partes iguais foram provocados, entre cronistas europeus, pela lenda das Icamiabas e sua galeria de mulheres independentes e guerreiras. O muiraquitã, hoje símbolo da cultura amazônica, carrega também um alerta: o de proteger o patrimônio arqueológico da região.
Curiosidades
- Relatos sobre mulheres guerreiras, comparadas às amazonas da mitologia grega, inspiraram o próprio nome do rio Amazonas.
- A venda de peças autênticas de muiraquitã é proibida por lei, já que são tratadas como patrimônio arqueológico protegido.
- Um estudo dedicado ao muiraquitã e aos ídolos simbólicos da Amazônia foi publicado por Barbosa Rodrigues no final do século XIX.
- Em Santarém e Belém, réplicas em pedra, cerâmica e resina circulam como lembranças turísticas e, com frequência, como presentes de boa sorte.
Fontes de referência
- Barbosa Rodrigues, O Muyrakytã e os Ídolos Symbolicos (1899)
- Mário de Andrade, Macunaíma (1928)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)
O texto deste verbete foi escrito especialmente para esta enciclopédia, com base na literatura folclorística. Encontrou algum deslize ou conhece outra versão contada por aí? Envie uma sugestão.
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